Caso investigado em Ilhéus chama atenção para avaliação pré-operatória, estrutura hospitalar, duração da cirurgia e preparo para possíveis emergências.
A morte de uma mulher de 31 anos durante uma cirurgia plástica em Ilhéus, na Bahia, voltou a colocar a segurança do paciente no centro do debate sobre procedimentos estéticos no Brasil. Adriele da Silva Pinto foi submetida a quatro procedimentos simultaneamente e morreu após mais de dez horas de cirurgia, segundo informações divulgadas nesta semana. A defesa do médico responsável afirma que a paciente sofreu hipertermia maligna, uma complicação grave e rara, enquanto a Polícia Civil investiga as circunstâncias do caso. (UOL Notícias)
O episódio não permite concluir, neste momento, que houve erro médico ou negligência. A investigação ainda precisa esclarecer o que aconteceu durante a operação e quais condições clínicas e estruturais estavam envolvidas. Para quem pensa em fazer cirurgia plástica, porém, o caso levanta uma pergunta importante: como avaliar se uma cirurgia estética está sendo planejada com segurança antes de entrar no centro cirúrgico?
Por que uma cirurgia plástica exige planejamento muito antes da operação
Uma cirurgia estética não deve ser tratada como um procedimento de beleza comum. Mesmo quando realizada com finalidade exclusivamente estética, ela envolve anestesia, alterações no organismo, riscos de sangramento, infecção, trombose, complicações cardiovasculares e outras intercorrências que precisam ser consideradas individualmente. Por isso, a avaliação médica anterior à cirurgia é uma das etapas mais importantes para identificar fatores de risco e decidir se o procedimento proposto é apropriado para aquele paciente.
No caso investigado na Bahia, a paciente teria realizado mastopexia com prótese, lipoescultura, remodelamento costal e jato de plasma durante uma operação que durou mais de dez horas. A defesa do médico sustenta que a causa da morte foi hipertermia maligna, condição rara e potencialmente fatal associada à anestesia em pessoas suscetíveis. Como o caso está sob investigação, ainda não é possível estabelecer relação causal definitiva entre qualquer procedimento específico e a morte. (UOL Notícias)
A quantidade de procedimentos realizados em uma mesma operação também mostra por que o planejamento individualizado é fundamental. Quanto mais extensa é uma cirurgia, maior pode ser a complexidade do acompanhamento e da recuperação, embora o risco não possa ser determinado apenas pelo número de procedimentos. Cabe à equipe médica avaliar estado de saúde, exames, histórico clínico, medicamentos utilizados, condições anestésicas e estrutura disponível para atendimento de eventuais emergências.
O que o paciente deve verificar antes de escolher uma cirurgia
Uma das principais recomendações para quem pretende realizar cirurgia plástica é pesquisar o profissional responsável e verificar sua formação. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mantém uma ferramenta para localização de especialistas e destaca que a segurança do paciente começa pela escolha de um cirurgião plástico qualificado. A entidade informa que seus membros especialistas passam por formação específica em cirurgia geral e cirurgia plástica e por processo de avaliação para ingresso na sociedade. (Cirurgia Plástica)
Além do profissional, o paciente precisa conhecer o local onde será operado. Perguntas sobre a estrutura disponível, equipe de anestesia, suporte para emergências, possibilidade de internação e acompanhamento no período posterior à cirurgia não devem ser vistas como exagero. A Anvisa também orienta consumidores de procedimentos estéticos a verificar se o estabelecimento está autorizado, se os produtos utilizados são regularizados e se o profissional possui qualificação compatível com o procedimento. (Serviços e Informações do Brasil)
Outro sinal de atenção é quando a consulta pré-operatória é tratada como uma formalidade. Uma avaliação adequada precisa permitir que o médico conheça o histórico do paciente, analise exames quando necessários, identifique fatores de risco e explique alternativas, limitações e possíveis complicações. O paciente também deve ter espaço para perguntar sobre anestesia, tempo previsto de cirurgia, recuperação, necessidade de acompanhamento e quais sinais exigem atendimento médico imediato.
A segurança também depende das expectativas. Redes sociais podem apresentar cirurgias como transformações rápidas e previsíveis, mas nenhum resultado cirúrgico é absolutamente garantido. A própria SBCP mantém entre seus conteúdos destinados ao público informações sobre procedimentos e segurança do paciente, reforçando a importância da escolha consciente do especialista. (Cirurgia Plástica)
Quais sinais devem fazer o paciente adiar uma decisão
Um dos sinais mais importantes de alerta é a pressão para decidir rapidamente. Cirurgia plástica envolve consentimento, preparação e recuperação, portanto o paciente deve desconfiar de promessas de resultado garantido, urgência comercial ou incentivo para realizar vários procedimentos sem compreender adequadamente os riscos. O preço também não deve ser o único critério utilizado para escolher uma equipe, porque estrutura, acompanhamento e qualificação profissional fazem parte da segurança.
Outro cuidado envolve procedimentos realizados fora de ambientes adequadamente preparados. A notícia de outro caso recente, envolvendo a morte de um homem durante um procedimento facial em Fortaleza, também trouxe questionamentos sobre equipamentos disponíveis para atendimento de uma emergência cardíaca; as circunstâncias permanecem sob investigação. (UOL Notícias) Esses episódios são diferentes e não devem ser tratados como equivalentes, mas mostram por que o paciente precisa conhecer previamente onde será atendido e quais recursos estarão disponíveis caso ocorra uma intercorrência.
Para quem pretende realizar uma cirurgia, algumas perguntas são particularmente relevantes: quem será o cirurgião responsável, onde ocorrerá o procedimento, quem conduzirá a anestesia, quais exames serão necessários, quanto tempo está previsto para a operação, como será o acompanhamento depois e para onde o paciente será encaminhado se surgir uma complicação. As respostas devem ser claras e compatíveis com o procedimento planejado, sem minimizar riscos ou criar falsas garantias.
O caso de Ilhéus deve continuar sendo acompanhado pelas autoridades responsáveis, que precisam esclarecer as circunstâncias da morte. Até que a investigação apresente conclusões, acusações de negligência devem ser tratadas como alegações, e a versão apresentada pela defesa também deve ser considerada. Para o público, a principal lição não é abandonar a cirurgia plástica, mas compreender que segurança começa muito antes da anestesia.
A cirurgia plástica pode proporcionar resultados importantes para pacientes que possuem indicação adequada e expectativas realistas, mas nenhum procedimento é isento de riscos. A tendência é que a discussão sobre segurança ganhe ainda mais espaço à medida que novas técnicas e combinações de procedimentos chegam ao mercado. Para o paciente brasileiro, a melhor proteção continua sendo informação, avaliação médica individualizada, profissional habilitado e estrutura preparada para lidar com complicações. (Cirurgia Plástica)