O turismo estético, prática que envolve viajar para realizar cirurgias ou outros procedimentos fora do país de residência, voltou a chamar atenção por causa do impacto das complicações no atendimento hospitalar. Dois estudos publicados em 2026 analisaram pacientes que precisaram de cuidados após operações realizadas no exterior e indicaram que o preço pago pela cirurgia não representa necessariamente o custo total do tratamento.
Uma das pesquisas foi conduzida por especialistas da Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos, e avaliou 36 pacientes tratados entre 2020 e 2023 após complicações decorrentes de cirurgias estéticas em clínicas privadas. O estudo foi publicado eletronicamente em 6 de junho de 2026 e integra a edição de setembro do periódico JPRAS Open, segundo o registro disponível no PubMed.
Complicações exigiram atendimento hospitalar e novas cirurgias
Entre os procedimentos que resultaram em complicações, 36,1% foram realizados no México e 11,4% na República Dominicana. O levantamento também identificou presença relevante de pacientes negros, hispânicos e usuários do Medicaid. Os autores apontaram esse perfil como um elemento que pode ajudar a compreender a relação entre desigualdades socioeconômicas, busca por procedimentos de menor custo e dificuldades para manter o acompanhamento médico depois da viagem.
O estudo registrou obesidade em 47,2% dos pacientes e uso de tabaco ou cannabis em 25% dos casos. De acordo com a análise, o consumo dessas substâncias esteve associado a maior ocorrência de infecções e à necessidade de intervenção cirúrgica. Os dados não permitem afirmar que esses fatores expliquem todos os eventos, mas mostram a importância de informar previamente a equipe médica sobre condições de saúde e hábitos que possam interferir na recuperação.
O impacto financeiro também foi expressivo. A mediana dos custos hospitalares chegou a US$ 43.324,96. Nos casos que exigiram uma nova cirurgia, a mediana alcançou US$ 125.358,70. Esses valores representam o atendimento das complicações analisadas e ajudam a ilustrar como uma operação inicialmente mais barata pode gerar despesas muito superiores quando surgem infecções, falhas na cicatrização ou outras intercorrências.
Acompanhamento após o retorno é parte da segurança
Um segundo estudo, publicado em 17 de maio de 2026 no periódico Cureus, examinou o impacto clínico e financeiro de complicações relacionadas ao turismo estético no Reino Unido. A pesquisa reforçou que problemas como infecções, necroses, hematomas, intercorrências envolvendo implantes e eventos tromboembólicos podem exigir internações, reoperações e acompanhamento prolongado após o retorno do paciente.
Quando a pessoa volta para casa sem documentação completa do procedimento, sem contato direto com a equipe responsável ou sem um plano definido para o pós-operatório, a avaliação de uma complicação pode se tornar mais complexa. Informações sobre a técnica utilizada, os materiais implantados, os medicamentos prescritos e os cuidados recomendados são relevantes para que outros profissionais compreendam o tratamento realizado.
Antes de viajar, o paciente também deve considerar como será o atendimento caso surja febre, dor intensa, secreção, abertura de pontos, alteração de cor na pele, falta de ar ou inchaço inesperado. Esses sinais não devem ser avaliados apenas à distância ou tratados como parte normal da recuperação. A decisão sobre procurar atendimento precisa levar em conta a orientação médica e a gravidade dos sintomas.
Estudos têm limitações e não representam todos os casos
Os resultados da pesquisa da Universidade da Califórnia em Davis precisam ser interpretados com cautela. Trata-se de um estudo retrospectivo, realizado em um único centro e com uma amostra de apenas 36 pacientes. Por isso, os dados não podem ser usados como retrato de todas as pessoas que fazem cirurgias estéticas no exterior, nem permitem concluir que todo procedimento realizado fora do país seja inseguro.
As pesquisas, porém, destacam uma questão objetiva: a continuidade do cuidado não termina com o fim da viagem. O planejamento deve incluir avaliação pré-operatória, informações claras sobre riscos, acesso à equipe que realizou a cirurgia e uma estratégia para o acompanhamento depois do retorno. A escolha baseada somente no preço ou em pacotes de viagem pode deixar de considerar despesas médicas, deslocamentos e possíveis reoperações.
O turismo estético não deve ser analisado apenas como uma decisão de consumo. A distância entre o paciente e o cirurgião, as diferenças entre sistemas de saúde e a dificuldade de obter prontuários ou esclarecer dúvidas podem interferir na resposta a uma complicação. Para reduzir incertezas, é importante reunir previamente os registros do procedimento e entender quem será responsável pelo suporte durante a recuperação.
Fontes consultadas
PMC — texto completo do estudo da Universidade da Califórnia em Davis.
Cureus — Recurrent Clinical Burden and Cost of Cosmetic Surgery Tourism Complications.