O uso da toxina botulínica tipo A após cirurgias pode ajudar a reduzir a largura de cicatrizes, segundo uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 22 de setembro de 2026 no periódico Aesthetic Surgery Journal. O trabalho analisou estudos sobre a aplicação do produto com o objetivo de prevenir ou melhorar cicatrizes no período pós-operatório.
De acordo com o registro disponível no PubMed, a análise reuniu 17 estudos, 456 participantes e 656 áreas tratadas. Os autores identificaram redução na largura das cicatrizes e melhora em algumas escalas clínicas usadas para avaliar a evolução da pele. Os resultados, porém, variaram conforme o momento da aplicação, a região do corpo e o tipo de cicatriz.
O que a nova revisão científica avaliou
A pesquisa concentrou-se em evidências sobre a toxina botulínica tipo A como estratégia complementar no cuidado de cicatrizes cirúrgicas. O interesse pelo método está relacionado à possibilidade de diminuir a tensão exercida sobre a pele durante a cicatrização, especialmente em áreas próximas a músculos que se movimentam.
A toxina botulínica é conhecida principalmente pelo uso estético para suavizar rugas, mas também vem sendo estudada em contextos relacionados à recuperação de feridas cirúrgicas. A hipótese analisada pelos pesquisadores é que o relaxamento temporário da musculatura próxima à incisão possa reduzir forças que contribuem para o alargamento da cicatriz.
Entre os resultados, o efeito considerado mais consistente foi observado na medida objetiva da largura das cicatrizes. Já as conclusões sobre a percepção dos próprios pacientes e sobre a aplicação imediata após a cirurgia foram classificadas como incertas na análise, o que reforça a necessidade de interpretar os dados com cautela.
Resultados promissores, mas com limitações
A revisão também avaliou diferenças relacionadas à dose. Entre os estudos analisados, o aumento da quantidade aplicada de 4 para 10 unidades por centímetro não esteve associado a benefício adicional. Esse achado não define uma dose ideal para todos os pacientes, mas indica que mais produto não necessariamente resultou em melhor desfecho nas pesquisas incluídas.
Outro ponto destacado foi a influência da região anatômica e do tipo de cicatriz. Como os trabalhos utilizaram abordagens diferentes, os resultados não podem ser automaticamente aplicados a qualquer cirurgia ou a todas as partes do corpo. Face, pescoço, tórax e abdômen, por exemplo, apresentam características distintas de movimento, tensão da pele e recuperação.
A própria natureza da revisão impõe limites. A quantidade de estudos disponíveis, as diferenças entre os protocolos e a variação nos critérios de avaliação dificultam a comparação direta dos resultados. Por isso, a evidência sugere um possível benefício, mas ainda não sustenta a adoção da toxina botulínica como procedimento obrigatório ou solução garantida para prevenir cicatrizes.
O que o paciente precisa saber antes de considerar o procedimento
O uso da toxina botulínica para cicatrizes pode ocorrer fora das indicações especificamente aprovadas para determinados contextos. Em uma comunicação anterior, a American Society of Plastic Surgeons informou que a toxina botulínica não possui aprovação específica da FDA para esse objetivo e ressaltou a necessidade de estudos maiores e de protocolos mais padronizados.
Na prática, isso significa que a indicação não deve ser baseada apenas na promessa de uma cicatriz mais fina. O tipo de cirurgia, a localização da incisão, as características individuais da pele, o histórico de cicatrização e o momento adequado da aplicação precisam ser considerados por um profissional habilitado. A decisão também deve diferenciar o que já faz parte do cuidado pós-operatório estabelecido do que ainda está em investigação.
A revisão publicada em setembro atualiza o debate ao reunir evidências sobre largura da cicatriz, momento da aplicação, dose e localização corporal. Ainda assim, seus resultados devem ser entendidos como um sinal favorável para novas pesquisas, não como confirmação definitiva de eficácia para todos os pacientes. O acompanhamento médico continua sendo essencial para avaliar a evolução da cicatriz e definir as opções disponíveis em cada caso.