Novos movimentos de fiscalização e segurança reforçam a importância de conferir profissional, estrutura e produtos antes da cirurgia.
A segurança voltou a ganhar espaço no debate sobre procedimentos estéticos no Brasil após uma sequência recente de medidas de fiscalização e iniciativas de entidades médicas. Em 8 de setembro, a Anvisa determinou a suspensão de dispositivos médicos por irregularidades constatadas em inspeção sanitária e falta de registro. Na semana anterior, o Conselho Federal de Medicina promoveu um fórum dedicado à atualização dos critérios de segurança da lipoaspiração, discutindo seleção de pacientes, ambiente cirúrgico, procedimentos combinados e novas tecnologias. (Serviços e Informações do Brasil)
Esses acontecimentos ajudam a responder uma dúvida comum de quem está pensando em cirurgia plástica: como avaliar se um procedimento está sendo planejado em condições adequadas de segurança? A resposta não está apenas na escolha da técnica ou na expectativa pelo resultado. Antes de marcar uma operação, o paciente precisa conhecer o profissional responsável, verificar onde a cirurgia será realizada, entender os riscos e saber quais materiais e produtos serão utilizados.
Por que a escolha do cirurgião é uma etapa essencial
A primeira decisão de quem considera uma cirurgia plástica não deveria ser baseada apenas em fotografias de antes e depois ou em publicações nas redes sociais. É necessário saber quem realizará o procedimento, qual é sua formação e se possui habilitação compatível com a cirurgia proposta. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mantém uma ferramenta para localização de cirurgiões plásticos membros da entidade, oferecendo ao público uma forma adicional de buscar informações sobre profissionais. (Cirurgia Plástica)
A consulta presencial também tem uma função que não pode ser substituída por conteúdos publicados na internet. É durante a avaliação médica que o profissional pode conhecer o histórico do paciente, analisar condições clínicas, discutir expectativas e explicar possíveis riscos, limitações e alternativas. A decisão sobre realizar uma cirurgia deve ser individualizada, porque uma técnica considerada adequada para uma pessoa pode não ser apropriada para outra devido a características físicas, condições de saúde ou outros fatores clínicos.
A segurança também depende da transparência durante a consulta. O paciente deve saber quem será responsável pela cirurgia, qual será o ambiente utilizado, quais profissionais participarão da equipe, como será o acompanhamento e quais cuidados serão necessários depois da operação. Promessas de resultado garantido, pressão para fechar o procedimento rapidamente ou respostas vagas sobre riscos são motivos para interromper a negociação e buscar esclarecimentos antes de qualquer pagamento ou agendamento.
O movimento recente do CFM mostra por que esse cuidado é necessário. Em 1º de setembro, o conselho reuniu especialistas no II Fórum de Cirurgia Plástica para discutir a atualização da Resolução CFM nº 1.711/2003, que estabelece parâmetros para a segurança da lipoaspiração. Entre os temas abordados estavam indicação, contraindicações, limites do procedimento, infraestrutura, associação com outras cirurgias, lipoenxertia e novas tecnologias. (Portal Médico)
O que verificar na clínica, no hospital e nos materiais utilizados
A escolha do profissional é apenas uma parte da segurança. O local onde a cirurgia será realizada também precisa ser compatível com o procedimento e contar com estrutura adequada para assistência ao paciente. Por isso, antes da operação, é importante perguntar onde ela ocorrerá, quais recursos estarão disponíveis e como a equipe está preparada para lidar com eventuais intercorrências.
Esse cuidado ganha relevância diante das recentes ações da Anvisa. Em 8 de setembro, a agência determinou a suspensão de determinados dispositivos médicos depois de identificar irregularidades em inspeção sanitária e ausência de registro. A medida alcançou produtos que, segundo a própria Anvisa, não poderiam ser fabricados, vendidos, distribuídos, divulgados ou utilizados nas condições determinadas pela decisão. (Serviços e Informações do Brasil)
Para o paciente, isso significa que não basta perguntar apenas o nome comercial de um material. É recomendável pedir informações sobre o produto ou dispositivo que será utilizado e, quando aplicável, verificar sua regularização nos canais oficiais da Anvisa. A agência também mantém uma ferramenta de consulta de alertas sanitários que permite pesquisar informações por nome do produto, número de regularização, data, área de atuação e palavras-chave. (Serviços e Informações do Brasil)
Outro ponto importante é separar produtos cosméticos de dispositivos médicos, medicamentos e outros materiais utilizados em procedimentos. Cada categoria possui regras específicas, e o fato de determinado produto aparecer em uma clínica ou nas redes sociais não significa automaticamente que ele seja apropriado para qualquer finalidade. O paciente tem o direito de perguntar o que será utilizado, por que será utilizado e quais riscos estão associados ao material ou à técnica.
A própria Anvisa vem ampliando mecanismos de monitoramento. Em balanço divulgado em 9 de setembro, a agência informou que as notificações de eventos adversos relacionados a cosméticos chegaram a 592 entre agosto de 2025 e julho de 2026, contra 257 no período anterior. A Anvisa relacionou o aumento ao fortalecimento da cosmetovigilância após a implementação da RDC 894/2024, além da capacitação de profissionais e realização de novas ações de fiscalização. (Serviços e Informações do Brasil)
Quais perguntas fazer antes de decidir pela cirurgia
Uma consulta bem conduzida deve permitir que o paciente faça perguntas sem constrangimento. Entre os pontos que merecem esclarecimento estão os riscos mais relevantes da cirurgia, o tempo estimado de recuperação, as restrições após o procedimento, a necessidade de acompanhamento e o que pode acontecer caso surja uma complicação. Também é importante compreender quais resultados são realisticamente esperados, sem transformar imagens de outras pessoas em promessa de resultado individual.
O paciente também pode perguntar se haverá combinação de procedimentos e por que essa estratégia foi proposta. Esse tema apareceu justamente entre os assuntos discutidos pelo CFM no fórum sobre lipoaspiração, ao lado de seleção adequada de pacientes, prevenção de complicações e infraestrutura. A existência de uma técnica ou combinação utilizada no mercado não significa que ela seja indicada para todos os pacientes, e a decisão deve depender da avaliação médica individual. (Portal Médico)
Outro cuidado é observar como a clínica apresenta informações financeiras. O preço final precisa ser compreendido de forma completa, incluindo os elementos que fazem parte da cirurgia e do acompanhamento. Uma oferta promocional, por si só, não demonstra que exista um problema, mas valores muito diferentes do esperado justificam perguntas sobre estrutura, equipe, materiais, hospital, anestesia e acompanhamento pós-operatório.
Também é prudente desconfiar de procedimentos apresentados como simples, sem riscos ou com recuperação garantida. Toda cirurgia pode envolver riscos e exige avaliação individual, planejamento e acompanhamento adequado. O paciente não deve decidir com base apenas em influenciadores, depoimentos ou fotografias, principalmente quando não consegue confirmar a origem das informações.
A cirurgia plástica pode fazer parte de um projeto pessoal de bem-estar e autoestima, mas a segurança precisa ocupar o mesmo espaço que a expectativa estética. As recentes ações da Anvisa e o debate promovido pelo CFM mostram que fiscalização, atualização de protocolos e controle de produtos são componentes importantes desse processo. Para o paciente, a melhor preparação começa antes da sala de cirurgia: verificar o profissional, conhecer o local, entender a técnica, conferir materiais e fazer todas as perguntas necessárias. Informação não elimina os riscos de uma operação, mas ajuda o paciente a participar de forma mais consciente das decisões sobre o próprio tratamento.