Pesquisa britânica revela que tratar complicações de cirurgias feitas no exterior pode custar até 20 mil libras por paciente ao sistema de saúde britânico.
O turismo de cirurgia plástica, prática que atrai milhares de pacientes para países como a Turquia em busca de preços mais baixos, voltou ao centro do debate internacional depois da divulgação de um estudo britânico sobre o custo de complicações pós-operatórias. A pesquisa, conduzida por universidades do Reino Unido e divulgada pela ITV News, mostra que corrigir problemas decorrentes de cirurgias estéticas e bariátricas realizadas fora do país pode custar ao sistema público de saúde britânico, o NHS, quase 20 mil libras por paciente em casos mais graves. O levantamento reabre uma pergunta recorrente entre quem pensa em operar fora do país: o valor mais baixo realmente compensa o risco envolvido?
O que mostra o estudo sobre turismo cirúrgico
Pesquisadores das universidades de Cardiff e Bangor analisaram 37 estudos com dados de 655 pacientes atendidos pelo NHS entre 2011 e 2024 por complicações decorrentes de cirurgias realizadas no exterior. Do total, 19 estudos trataram de complicações de cirurgia bariátrica ou metabólica, 17 abordaram complicações de cirurgia estética e um envolveu cirurgia ocular. Os custos hospitalares calculados pelos pesquisadores variaram entre 1.058 e 19.549 libras por paciente, dependendo da gravidade do quadro e do tempo de internação necessário para o tratamento.
A Turquia apareceu como o destino mais procurado entre os pacientes analisados, respondendo por 61% dos casos, em procedimentos como lipoaspiração, aumento dos seios e cirurgias para retirada do excesso de pele. A maior parte dos pacientes era composta por mulheres, com idade média de 38 anos, e mais da metade enfrentou complicações classificadas como moderadas a graves após o retorno ao país de origem. Em alguns casos, a internação chegou a durar entre 45 e 49 dias, com média de 17 dias para complicações ligadas a cirurgias bariátricas.
Os riscos por trás do preço mais baixo
Entre as complicações mais citadas pelo estudo estão infecções em feridas cirúrgicas, necessidade de cuidados intensivos prolongados e casos de sepse decorrente de infecção em ferimentos. A reportagem também citou histórias de pacientes que não resistiram às complicações após procedimentos estéticos e bariátricos realizados na Turquia, reforçando que o risco não se limita a casos isolados, mas aparece de forma recorrente nos levantamentos hospitalares analisados pelos pesquisadores britânicos.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, parte do problema está na dificuldade de garantir, a partir de outro país, o mesmo padrão de acompanhamento pré e pós-operatório oferecido em clínicas locais, além da menor possibilidade de retorno rápido ao médico responsável caso surjam sintomas nos primeiros dias após a cirurgia. O Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido destacou que muitas pessoas têm sido atraídas para procedimentos estéticos mais baratos no exterior, terminando o processo com complicações que mudam a própria rotina e ainda geram custo elevado ao sistema público.
O que considerar antes de decidir operar fora do país
Embora o estudo tenha como base o sistema de saúde britânico, a lógica se aplica a qualquer paciente que pense em buscar cirurgia plástica fora do Brasil em busca de preços menores. Verificar a formação do profissional responsável, a estrutura hospitalar disponível para emergências e o tipo de acompanhamento oferecido após o procedimento são pontos que pesquisadores e entidades médicas recomendam observar antes de qualquer viagem com esse objetivo, já que complicações podem surgir mesmo dias depois da cirurgia, quando o paciente já está de volta para casa.
Outro fator citado pelos pesquisadores é a importância de manter contato direto com um médico no país de origem durante o período de recuperação, especialmente nas primeiras semanas após a cirurgia, quando a maioria das complicações graves costuma se manifestar. A recomendação vale tanto para quem considera procedimentos estéticos quanto para quem avalia cirurgias bariátricas no exterior, já que o estudo britânico tratou os dois tipos de procedimento como parte do mesmo fenômeno de turismo cirúrgico.
O estudo britânico reforça um alerta que já circula entre cirurgiões plásticos no Brasil há anos: o valor mais baixo de um procedimento no exterior nem sempre reflete o custo real envolvido, sobretudo quando surgem complicações. Antes de decidir operar fora do país, vale pesquisar com cuidado a formação do profissional, a estrutura da clínica e o suporte disponível em caso de intercorrências, além de manter um médico de confiança acompanhando todo o processo de recuperação. A decisão sobre qualquer procedimento estético, dentro ou fora do Brasil, deve sempre passar por uma avaliação médica individual, que leve em conta histórico de saúde, expectativas reais e os riscos específicos de cada caso.
Fontes:
Autor: Diego Rodríguez Velázquez