Novo balanço da Anvisa reforça a importância de verificar produtos, profissionais e estabelecimentos antes de qualquer procedimento estético.
A segurança dos procedimentos estéticos voltou ao centro das atenções após a Anvisa divulgar, em 9 de setembro, um balanço do primeiro ano de vigência das regras de cosmetovigilância no Brasil. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram registradas 592 notificações de eventos adversos relacionados a cosméticos no sistema Notivisa, contra 257 no período anterior, uma alta de aproximadamente 130%. O aumento não significa necessariamente que os produtos tenham se tornado mais perigosos: a própria Anvisa relaciona parte do crescimento ao fortalecimento da vigilância e à maior capacitação de profissionais e empresas para comunicar ocorrências.
Para quem pretende fazer um procedimento estético, a principal dúvida passa a ser prática: como saber se o produto utilizado é regularizado e se o local escolhido oferece condições adequadas de segurança? A resposta envolve mais do que pesquisar fotos de resultados nas redes sociais. Produto autorizado, estabelecimento regularizado e profissional habilitado são elementos que precisam ser avaliados antes da decisão.
O que significa o aumento das notificações de eventos adversos
O crescimento das notificações chamou atenção porque mostra uma mudança importante na forma como a segurança dos cosméticos é acompanhada no país. Segundo a Anvisa, a RDC 894/2024 estabeleceu boas práticas de cosmetovigilância e fortaleceu o monitoramento de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes depois que eles chegam ao mercado. No primeiro ano de vigência da norma, foram contabilizadas 592 notificações no Notivisa, contra 257 no período anterior, o equivalente a aproximadamente 130% de aumento. A agência também informou que mais de 400 profissionais do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária foram capacitados e que novas ações de inspeção foram realizadas.
É importante interpretar esse número corretamente. Uma notificação de evento adverso não significa automaticamente que um produto seja responsável por um problema de saúde, nem que todo aumento nas notificações corresponda a um aumento proporcional dos riscos. O crescimento pode refletir também uma vigilância mais eficiente, maior conhecimento dos canais de comunicação e maior disposição para registrar ocorrências. Para o paciente, isso representa um alerta sobre a importância de comunicar problemas e buscar atendimento quando houver uma reação inesperada, em vez de simplesmente ignorar o episódio.
A própria Anvisa mantém uma orientação específica para consumidores que pretendem realizar procedimentos estéticos. A agência destaca três pontos básicos: escolher um local autorizado, utilizar produto aprovado e procurar profissional qualificado. Esses critérios são particularmente importantes porque diferentes procedimentos podem envolver cosméticos, medicamentos, produtos para saúde ou substâncias injetáveis, cada um sujeito a regras próprias.
Como verificar se um procedimento estético oferece condições adequadas de segurança
Antes de marcar um procedimento, o paciente pode começar pela estrutura onde ele será realizado. A regularização sanitária do estabelecimento é um aspecto relevante porque demonstra que o serviço está sujeito às exigências de fiscalização correspondentes à sua atividade. Também é importante perguntar qual produto será utilizado, qual é o fabricante e se existe registro ou regularização aplicável na Anvisa. A agência disponibiliza ferramentas de consulta para verificar a situação de produtos para saúde, permitindo que o consumidor confira informações antes de aceitar determinado material ou dispositivo.
Outro ponto é confirmar a formação e a habilitação do profissional responsável. Em procedimentos médicos, essa verificação deve ser feita com atenção especial, principalmente quando existe aplicação de substâncias, anestesia ou intervenção cirúrgica. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mantém uma ferramenta para localização de cirurgiões plásticos membros da entidade, enquanto o CFM disponibiliza informações profissionais em seus canais oficiais. A existência de publicidade nas redes sociais, número elevado de seguidores ou imagens de antes e depois não substitui a avaliação da qualificação profissional.
O momento atual também mostra que a segurança está sendo discutida de forma mais ampla pelas entidades médicas. No início de setembro, o CFM realizou um fórum dedicado à lipoaspiração e debateu a atualização dos critérios de segurança estabelecidos pela Resolução CFM nº 1.711/2003. Entre os temas discutidos estavam seleção de pacientes, prevenção de complicações, infraestrutura, procedimentos combinados, lipoenxertia e novas tecnologias.
Isso reforça uma ideia importante para quem pensa em cirurgia plástica: tecnologia nova não elimina a necessidade de avaliação médica individualizada. Uma técnica, equipamento ou produto pode ter características específicas, indicações, contraindicações e limitações que precisam ser analisadas de acordo com cada paciente. A decisão sobre realizar ou não um procedimento deve ocorrer depois de consulta e avaliação com profissional habilitado, e não apenas a partir de tendências divulgadas na internet.
Quais sinais devem fazer o paciente interromper a decisão
Um dos principais sinais de alerta é a dificuldade de obter informações básicas. Se a clínica não informa claramente quem será responsável pelo procedimento, qual produto será utilizado, onde o procedimento será realizado ou quais são os riscos envolvidos, o paciente tem motivo para adiar a decisão e buscar esclarecimentos. Também merece cautela a promessa de resultados garantidos, recuperação impossível de complicar ou transformação estética muito rápida, especialmente quando acompanhada de pressão para pagamento imediato.
O preço também precisa ser analisado com cuidado, mas não deve ser o único critério. Procedimentos médicos envolvem avaliação, estrutura, materiais, equipe, acompanhamento e possíveis cuidados posteriores, e todos esses elementos fazem parte da segurança. Uma oferta muito abaixo dos valores praticados no mercado não prova que exista irregularidade, mas pode justificar perguntas adicionais sobre o que está incluído no serviço e sobre as condições em que o procedimento será realizado.
Outro cuidado é diferenciar cosméticos de produtos utilizados em procedimentos médicos. A Anvisa possui regras específicas para produtos de higiene pessoal, cosméticos, perfumes e dispositivos médicos, e a regularização depende da categoria e da finalidade de cada produto. A agência também vem reforçando ações de fiscalização: em 8 de setembro, por exemplo, determinou a suspensão de determinados dispositivos médicos devido a irregularidades e falta de registro.
Para o paciente, a orientação prática é simples: não aceitar a aplicação de um produto apenas porque ele aparece em vídeos ou é divulgado por influenciadores. O nome comercial, a indicação, a regularização e a forma de utilização precisam ser esclarecidos pelo profissional responsável. Em caso de dúvida, o consumidor pode consultar diretamente os canais oficiais da Anvisa e, diante de sintomas ou complicações, procurar atendimento de saúde sem tentar resolver o problema por conta própria.
A alta das notificações registrada pela Anvisa mostra que a segurança estética depende também da participação do consumidor. Antes de qualquer procedimento, vale verificar o estabelecimento, confirmar a habilitação profissional, perguntar quais produtos serão utilizados e entender os riscos e cuidados de recuperação. A tendência de maior vigilância pode contribuir para identificar problemas com mais rapidez, mas nenhuma estatística substitui a avaliação individual de cada paciente. Para quem busca cirurgia plástica ou estética, informação continua sendo uma das principais ferramentas para tomar decisões conscientes e reduzir riscos.
Fontes
- Anvisa — balanço da cosmetovigilância e aumento das notificações
- Anvisa — Estética com segurança
- Anvisa — consulta de produtos para saúde
- CFM — debate sobre atualização dos critérios de segurança para lipoaspiração
- Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica — portal oficial
- Anvisa — suspensão de dispositivos médicos irregulares