Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, evidencia que os programas de habitação social brasileiros historicamente concentraram seus esforços no acesso à moradia, deixando em segundo plano a estruturação dos serviços de saneamento básico nos novos territórios ocupados. Isso ocorre porque a gestão de resíduos sólidos, em particular, raramente é considerada como componente do planejamento habitacional desde a fase de projeto, resultando em conjuntos habitacionais entregues sem infraestrutura adequada de coleta, sem espaços físicos para armazenamento de resíduos e sem sistemas de coleta seletiva integrados desde o início da ocupação.
Vamos entender neste artigo por que essa integração é indispensável e o que já está sendo feito para avançar nessa direção.
O déficit de infraestrutura de resíduos nos conjuntos habitacionais
Os grandes conjuntos habitacionais construídos no Brasil nas últimas décadas, especialmente no âmbito do Programa Minha Casa Minha Vida, foram implantados frequentemente em áreas periféricas sem cobertura consolidada de serviços urbanos, incluindo a coleta de resíduos sólidos. A chegada simultânea de milhares de famílias em territórios sem infraestrutura prévia de saneamento criou demandas que os sistemas municipais de coleta não estavam dimensionados para atender, resultando em acúmulo de resíduos em espaços comuns, descarte irregular nos arredores dos conjuntos e proliferação de pontos de lixo a céu aberto nas áreas de entorno.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a ausência de espaços físicos adequados para o armazenamento de resíduos nos projetos arquitetônicos dos conjuntos habitacionais é um problema recorrente que compromete qualquer iniciativa posterior de estruturação da coleta seletiva. De fato, prédios e casas sem áreas destinadas à triagem e ao armazenamento diferenciado de resíduos tornam praticamente impossível a implementação de sistemas de coleta seletiva eficientes, independentemente do nível de engajamento dos moradores ou da frequência das rotas de coleta municipais.

O papel do projeto arquitetônico na viabilização da coleta seletiva
A integração da gestão de resíduos ao projeto arquitetônico dos empreendimentos habitacionais é uma das medidas com maior custo-benefício para garantir a viabilidade de sistemas de coleta seletiva no longo prazo. Elementos como espaços de triagem bem dimensionados, localizados em pontos de fácil acesso para moradores e para os veículos de coleta, com ventilação adequada e capacidade de armazenar as diferentes frações de resíduos gerados pelos condôminos, custam relativamente pouco quando incorporados ao projeto original e que representam investimentos muito maiores quando adaptados após a entrega do empreendimento.
Na concepção de Marcello José Abbud, a exigência de infraestrutura mínima para a gestão de resíduos como requisito obrigatório nos projetos de habitação social é uma medida regulatória de baixo custo e alto impacto ambiental. Com efeito, a inclusão desse requisito nos critérios de aprovação e financiamento de empreendimentos habitacionais pelos programas federais e estaduais seria uma forma direta de garantir que os novos conjuntos entregues ao país já disponham das condições físicas necessárias para a adoção de práticas adequadas de separação e destinação de resíduos desde o primeiro dia de ocupação.
Educação ambiental e gestão de resíduos nos conjuntos habitacionais
Além da infraestrutura física, a gestão eficiente de resíduos em conjuntos habitacionais de interesse social depende de programas de educação ambiental adaptados à realidade e ao perfil socioeconômico dos moradores. Famílias recém-chegadas a um novo território, frequentemente oriundas de áreas sem qualquer sistema de coleta seletiva, precisam de orientação prática, contínua e culturalmente adequada para incorporar novos hábitos de separação e descarte de resíduos em sua rotina doméstica cotidiana.
Marcello José Abbud conclui que programas de educação ambiental que combinam formação de lideranças comunitárias, comunicação visual acessível nos espaços comuns dos conjuntos e parcerias com cooperativas de catadores para a coleta diferenciada dos recicláveis produzem resultados mais consistentes e duradouros do que campanhas pontuais de sensibilização. A continuidade desses programas ao longo do tempo, com apoio municipal e participação ativa das associações de moradores, é o que transforma a gestão de resíduos em uma prática incorporada à cultura do conjunto habitacional.