É comum associar a falta de energia a noites mal dormidas, excesso de trabalho ou uma alimentação inadequada. No entanto, a ciência vem mostrando que existe uma estrutura microscópica, presente em praticamente todas as células do corpo, que exerce um papel decisivo sobre disposição, metabolismo, recuperação muscular e até o processo de envelhecimento. Embora pouco conhecida pela maioria das pessoas, ela influencia diariamente a forma como o organismo produz a energia necessária para manter todas as funções vitais.
Lucas Peralles, nutricionista esportivo, fundador do Método LP e referência em nutrição esportiva em São Paulo, explica que essas estruturas recebem o nome de mitocôndrias e podem ser consideradas verdadeiras usinas de energia do organismo. Nos últimos anos, elas passaram a ocupar um espaço cada vez maior nas pesquisas sobre saúde metabólica, longevidade e desempenho físico. Isso acontece porque, à medida que a ciência compreende melhor seu funcionamento, fica mais evidente que cuidar da saúde não significa apenas consumir calorias, mas garantir que o corpo consiga transformar essa energia em funcionamento eficiente.
O que são as mitocôndrias e por que elas são tão importantes?
Cada movimento realizado, cada batimento cardíaco, cada pensamento e cada respiração dependem da produção constante de energia. Essa energia é gerada dentro das mitocôndrias, estruturas responsáveis por transformar os nutrientes obtidos na alimentação em ATP, a principal molécula utilizada pelas células para desempenhar suas funções. Sem esse processo, músculos, cérebro, coração e todos os demais órgãos perderiam rapidamente sua capacidade de funcionamento.
Durante muito tempo, acreditou-se que essas organelas tinham apenas a função de produzir energia. Hoje, sabe-se que seu papel é muito mais amplo. Elas participam da comunicação entre as células, influenciam processos inflamatórios, ajudam na adaptação ao exercício físico e exercem papel importante na forma como o organismo envelhece. Ao analisar essa evolução do conhecimento científico, Lucas Peralles destaca que compreender o funcionamento das mitocôndrias representa uma mudança de perspectiva: saúde não depende apenas da quantidade de alimento ingerido, mas também da eficiência com que o organismo utiliza essa energia.
O que acontece quando essas “usinas” deixam de funcionar bem?
Com o passar dos anos, fatores como sedentarismo, alimentação desequilibrada, excesso de peso, privação de sono, estresse crônico e envelhecimento podem reduzir a eficiência das mitocôndrias. Como consequência, a produção de energia diminui e aumenta a formação de moléculas conhecidas como espécies reativas de oxigênio. Em equilíbrio, essas moléculas fazem parte do funcionamento normal do organismo. Porém, quando produzidas em excesso, podem favorecer o chamado estresse oxidativo, mecanismo associado ao envelhecimento celular e ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas.
Esse processo não significa que uma pessoa passará imediatamente a apresentar sintomas ou doenças. Na prática, trata-se de um desgaste gradual da capacidade celular de produzir energia e responder aos desafios do dia a dia. Diante desse cenário, Lucas Peralles ressalta que muitas vezes o cansaço persistente, a dificuldade de recuperação após os treinos e a redução da disposição não estão relacionados apenas à idade, mas também à forma como o organismo vem sendo cuidado ao longo dos anos.
Exercício físico fortalece apenas os músculos?
Uma das descobertas mais interessantes da ciência é que o exercício físico produz benefícios que vão muito além da força muscular ou da queima de calorias. Quando realizado de forma regular e respeitando a capacidade individual, ele provoca pequenas adaptações celulares que estimulam o organismo a se tornar mais eficiente. Esse mecanismo, conhecido como hormese, faz com que o corpo fortaleça seus sistemas de defesa e melhore a função das mitocôndrias, aumentando sua capacidade de produzir energia.

Isso ajuda a explicar por que pessoas fisicamente ativas costumam apresentar maior disposição, melhor recuperação e menor risco de desenvolver diversas doenças ao longo da vida. Segundo Lucas Peralles, o verdadeiro benefício do exercício não está apenas na aparência física, mas na capacidade de promover adaptações profundas dentro das células. Cada treino representa um estímulo para que o organismo se torne mais resistente, eficiente e preparado para enfrentar os desafios impostos pela rotina.
Como proteger as mitocôndrias no dia a dia?
Embora não exista um alimento ou suplemento capaz de transformar sozinho a saúde mitocondrial, existe um conjunto de hábitos que influencia diretamente seu funcionamento. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono de qualidade, controle do estresse, manutenção da massa muscular e um estilo de vida ativo criam condições para que essas estruturas trabalhem de maneira mais eficiente ao longo dos anos.
Sob essa perspectiva, Lucas Peralles explica que saúde metabólica é resultado da soma dessas escolhas diárias. Não se trata apenas de emagrecer ou melhorar indicadores laboratoriais, mas de construir um organismo capaz de produzir energia de forma eficiente e responder adequadamente às exigências da vida moderna. Quando esses pilares são fortalecidos, o impacto vai além do desempenho físico e se reflete na qualidade de vida, na recuperação e no processo de envelhecimento.
A verdadeira energia do corpo nasce muito antes da sensação de disposição
Durante muito tempo, acreditamos que energia significava apenas consumir mais calorias ou descansar algumas horas a mais. Hoje, a ciência mostra que esse processo é muito mais complexo e começa em estruturas invisíveis a olho nu, mas fundamentais para o funcionamento do organismo. Entender como as mitocôndrias trabalham ajuda a perceber que saúde é construída dentro das células muito antes de se refletir na aparência ou no rendimento físico.
Por fim, Lucas Peralles reforça que cuidar da alimentação, manter uma rotina ativa, preservar a qualidade do sono e investir em hábitos consistentes são atitudes que fortalecem não apenas músculos ou metabolismo, mas também os mecanismos celulares responsáveis por produzir a energia que sustenta a vida. Afinal, quando as mitocôndrias funcionam melhor, todo o organismo responde de maneira mais eficiente.